postos de guarda. Espiando do telhado de
uma estalagem próxima do Portão do Rei, Arya os viu
vasculhar carroças e carruagens, forçar cavaleiros a abrir
seus alforjes e interrogar todos os que tentavam passar a
pé.
Por vezes pensava em atravessar o rio a nado, mas a
Torrente da Agua Negra era larga e profunda, e todos
concordavam que suas correntes eram perigosas e
traiçoeiras. Não tinha dinheiro para pagar a um
barqueiro ou comprar uma passagem de navio. O senhor
seu pai a ensinara a nunca roubar, mas estava se
tornando cada vez mais difícil lembrar por quê. Se não
saísse dali em breve, teria de arriscar a sorte com os
homens de manto dourado. Não tinha passado muita
fome desde que aprendera a derrubar aves com a espada
de pau, mas temia que tanto pombo a estivesse deixando
doente. Comera dois deles crus antes de encontrar a
Baixada das Pulgas.
Na Baixada havia casas de pasto espalhadas pelas vielas,
onde enormes banheiras de guisado ferviam há anos, e
podia-se trocar metade de uma ave por uma fatia de pão
do dia anterior e uma "tigela de castanho", e até
torravam a outra metade no fogo, desde que o cliente
depenasse o pombo. Arya teria dado qualquer coisa por
uma xícara de leite e um bolo de limão, mas o castanho
não era de todo mau. Costumava ter cevada e pedaços de
cenoura, cebola e nabo, e às vezes tinha até maçã com
uma película de gordura por cima. Em geral, tentava não
pensar na carne. Uma vez obtivera um pedaço de peixe.
O único problema era que essas casas nunca estavam
vazias, e mesmo enquanto devorava a comida podia
senti-los observando-a. Alguns deles não tiravam os
olhos de suas botas ou de seu manto, e sabia no que
estavam pensando, Com outros, quase conseguia sentir
os olhos rastejando sob seus couros; não sabia em que
eles estavam pensando, e isso a assustava ainda mais.
Umas duas vezes fora seguida até as vielas e perseguida
depois, mas até então nenhum tinha sido capaz de
apanhá-la.
A pulseira de prata que esperava vender fora roubada na
primeira noite que passara fora do castelo, junto com a
trouxa de roupa boa, surrupiada enquanto dormia em
uma casa queimada, perto da Viela dos Porcos. Tudo o
que lhe tinham deixado foram o manto em que se
enrolara, os couros que vestia, a espada de treino de
madeira... e a Agulha. Dormia em cima da Agulha, e se
não fosse isso, também a teria perdido; valia mais que
todo o resto. Desde então, Arya acostumara-se a
caminhar com o manto enrolado no braço direito, a fim
de esconder a lâmina que trazia à cintura. A espada de
madeira era levada na mão esquerda, onde todos a
pudessem ver, para assustar ladrões, mas havia homens
nas casas de pasto que não se assustariam nem que ela
tivesse um machado de batalha. Era o suficiente para lhe
fazer perder o gosto por pombo e pão duro. Era mais
comum ir dormir com fome do que se arriscar aos
olhares.
Uma vez fora da cidade, encontraria frutas do bosque
prontas para colher, ou pomares que poderia assaltar em
busca de maçãs ou cerejas. Arya lembrava-se de ver
alguns da Estrada do Rei durante a viagem para o sul. E
poderia escavar em busca de raízes na floresta, ou até
caçar alguns coelhos. Na cidade, as únicas coisas que
podia caçar eram ratazanas, gatos e cães descarnados.
Ouvira dizer que as casas de pasto ofereciam uma mão-
cheia de cobres por uma ninhada de cachorros, mas não
gostava de pensar nisso.
Abaixo da Rua da Farinha ficava um labirinto de vilas
retorcidas e travessas. Arya lutou para atravessar a
multidão, tentando colocar distância entre si e os
homens de manto dourado. Aprendera a manter-se no
centro da rua. Por vezes tinha de se desviar de carroças e
cavalos, mas pelo menos podia vê-los aproximarem-se.
Quem caminhasse junto aos edifícios era agarrado pelas
pessoas. Em algumas vielas não havia hipótese de não
roçar nas paredes; os edifícios aproximavam-se tanto que
quase se encontravam.
Um ruidoso bando de crianças pequenas passou por ela
correndo, brincando de arco. Arya ficou olhando para
eles com ressentimento, lembrando-se dos tempos em que
assim brincara com Bran, Jon e o irmão mais novo,
Rickon. Perguntou a si mesma quanto teria crescido
Rickon, e se Bran estaria triste. Teria dado tudo por ter
ali Jon chamando-a de"irmãzinha"e despenteando-lhe os
cabelos. Não que precisasse ser despenteado. Vira seu
reflexo em poças, e não lhe parecia que pudesse haver
cabelos mais despenteados que os dela.
Tentara falar com as crianças que via na rua, esperando
fazer um amigo que lhe arranjasse lugar para dormir,
mas devia falar errado ou qualquer coisa do gênero. Os
pequenos limitavam--se a mirá-la com olhos rápidos e
cuidadosos, e fugiam caso se aproximasse demais. Os
irmãos e irmãs mais velhos faziam perguntas que Arya
não podia responder, davam-lhe apelidos e tentavam
roubá-la. Já no dia anterior uma menina magricela e
descalça, com o dobro de sua idade, a tinha atirado ao
chão e tentara arrancar-lhe as botas, mas Arya dera-lhe
um estalo na orelha com a espada de pau que a afastara
aos soluços e sangrando.
Uma 